Tente outra vez

O dia dos namorados havia passado e a tristeza amargado o coração de Álvaro. Franzino, branco e a exalar certa intelectualidade, o mancebo carregavaem seu MP4 as dores de uma vida amorosa confusa e falida. Nunca havia namorado, nunca havia dado um beijo se quer em uma mulher, tirando a mãe e a genitora desta. Tudo que Álvaro queria era uma chance, pelo menos uma, um sorriso de moça já bastava. E ele veio.

Sônia, ou Soninha para os íntimos, também não estava tendo sorte. Havia terminado um namoro há uns três meses e a carência afetiva era enorme. Não, ela não queria beijos e amassos. Ela queria um companheiro, queria um homem de verdade, alguém que desse uma segurança, não só cheiro de macho.

Bem, o destino tentou ajudar os dois nesta segunda. Álvaro estava na parada de ônibus ao ouvir o seu MP4 e eis que de repente chega Soninha, sua velha amiga.

- Soninha!

- Álvaro!

- Como vai você?

- Vou bem! E você?

Enfim, rolou aquela conversa de sempre com os assuntos de sempre: família, escola, trabalho, dinheiro, festas e blábláblá. Terminado esse período de conversa, um silêncio triste tomou conta dos amigos. Álvaro sabia que Soninha estava sozinha a procurar um homem interessante. Ele talvez não era tão interessante, mas era um homem, já era metade do objetivo sendo atingido. Diante disto, Álvaro não perdeu tempo:

- Mas, e aí? E o coração, como anda?

- Batendo, né? – respondeu Soninha.

Álvaro engoliu seco a resposta, mesmo não sendo grossa e sendo a mais pura verdade. Ele pensou um pouco e não desaminou. Quando a gente não tem nada a perder é assim mesmo.

- Não, Soninha, não é isso. Você está namorando e talz?

- Não, estou a procura, uma eterna procura.

- Poxa, eu também. Mas é difícil encontrar a pessoa certa, né? Principalmente quando a gente quer algo sério, algo duradouro.

- É verdade, Álvaro. As pessoas querem viver o prazer instantâneo, não pensam mais no futuro. Eu não quero isso, quero algo sério.

- Eu também, bom saber que você pensa assim.

Bem, Álvaro não era todo esse poço de bondade. A conversa era mentirosa e fiada. Certamente não iria colar com a Soninha, que de boba não tinha nada.

- Mas e aí, não está de olho em ninguém?

- Não, pior que não. Estou sem sorte. Tens uns caras bonitos, mas beleza não é o bastante para mim. Quero um homem para casar!

Casar. Essa palavra ecoou no imaginário de Álvaro.  Talvez fosse a última coisa que ele pensava. Ele queria era tirar o atraso, queria é acabar com a sua seca. No entanto, ele estava disposto a fazer o papel de ovelha indefesa e se aproximar de Soninha. “Eu estou só e ela também, o que há demais?”. Assim, em um ato até ousado para os seus padrões, ele pergunta:

- Soninha, posso te fazer uma outra pergunta?

- Sim, pode sim. Diga.

- Você tem algo para fazer sábado a noite?

- Não, estou livre. Por quê?

- É que eu gostaria de te…

O destino estava conseguindo juntar os dois, mas ele não contava com um pequeno problema: o ônibus.

- Ai meu Deus! O ônibus está vindo! Tenho que ir, Álvaro! Depois  a gente se fala!

- Ei, espera! Não vai, não! Fica aí!

- Tchau! Tchau!

O ônibus para e Soninha o pega. Álvaro vê todo o seu “trabalho” escorrendo pelo ralo e se conforma, não havia o que fazer. Na verdade, havia sim. Só restava a ele trocar a música do MP4.

É Álvaro, perder faz parte, só não pode desistir, sempre devemos tentar outra vez.

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Sem hora do destino

O dia dos namorados havia passado e a tristeza amargado o coração de Álvaro. Franzino, branco e a exalar certa intelectualidade, o mancebo carregavaem seu MP4 as dores de uma vida amorosa confusa e falida. Nunca havia namorado, nunca havia dado um beijo se quer em uma mulher, tirando a mãe e a genitora desta. Tudo que Álvaro queria era uma chance, pelo menos uma, um sorriso de moça já bastava. E ele veio.

Sônia, ou Soninha para os íntimos, também não estava tendo sorte. Havia terminado um namoro há uns três meses e a carência afetiva era enorme. Não, ela não queria beijos e amassos. Ela queria um companheiro, queria um homem de verdade, alguém que desse uma segurança, não só cheiro de macho.

Bem, o destino tentou ajudar os dois nesta segunda. Álvaro estava na parada de ônibus ao ouvir o seu MP4 e eis que de repente chega Soninha, sua velha amiga.

- Soninha!

- Álvaro!

- Como vai você?

- Vou bem! E você?

Enfim, rolou aquela conversa de sempre com os assuntos de sempre: família, escola, trabalho, dinheiro, festas e blábláblá. Terminado esse período de conversa, um silêncio triste tomou conta dos amigos. Álvaro sabia que Soninha estava sozinha a procurar um homem interessante. Ele talvez não era tão interessante, mas era um homem, já era metade do objetivo sendo atingido. Diante disto, Álvaro não perdeu tempo:

- Mas, e aí? E o coração, como anda?

- Batendo, né? – respondeu Soninha.

Álvaro engoliu seco a resposta, mesmo não sendo grossa e sendo a mais pura verdade. Ele pensou um pouco e não desaminou. Quando a gente não tem nada a perder é assim mesmo.

- Não, Soninha, não é isso. Você está namorando e talz?

- Não, estou a procura, uma eterna procura.

- Poxa, eu também. Mas é difícil encontrar a pessoa certa, né? Principalmente quando a gente quer algo sério, algo duradouro.

- É verdade, Álvaro. As pessoas querem viver o prazer instantâneo, não pensam mais no futuro. Eu não quero isso, quero algo sério.

- Eu também, bom saber que você pensa assim.

Bem, Álvaro não era todo esse poço de bondade. A conversa era mentirosa e fiada. Certamente não iria colar com a Soninha, que de boba não tinha nada.

- Mas e aí, não está de olho em ninguém?

- Não, pior que não. Estou sem sorte. Tens uns caras bonitos, mas beleza não é o bastante para mim. Quero um homem para casar!

Casar. Essa palavra ecoou no imaginário de Álvaro.  Talvez fosse a última coisa que ele pensava. Ele queria era tirar o atraso, queria é acabar com a sua seca. No entanto, ele estava disposto a fazer o papel de ovelha indefesa e se aproximar de Soninha. “Eu estou só e ela também, o que há demais?”. Assim, em um ato até ousado para os seus padrões, ele pergunta:

- Soninha, posso te fazer uma outra pergunta?

- Sim, pode sim. Diga.

- Você tem algo para fazer sábado a noite?

- Não, estou livre. Por quê?

- É que eu gostaria de te…

O destino estava conseguindo juntar os dois, mas ele não contava com um pequeno problema: o ônibus.

- Ai meu Deus! O ônibus está vindo! Tenho que ir, Álvaro! Depois  a gente se fala!

- Ei, espera! Não vai, não! Fica aí!

- Tchau! Tchau!

O ônibus para e Soninha o pega. Álvaro vê todo o seu “trabalho” escorrendo pelo ralo e se conforma, não havia o que fazer. Na verdade, havia sim. Só restava a ele trocar a música do MP4.

É Álvaro, perder faz parte, só não pode desistir. Tente outra vez.

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Os sinônimos e seus antagonismos

Todos dizem: “O português é uma língua rica.” Na verdade não só a nossa, mas diversas línguas são ricas. Muitas expressões, muitas palavras com diversos significados. O que nunca tinha percebido é que a riqueza de uma língua também ajuda no debate de ideias, isto é, na argumentação. Certa vez, vi dois jovens conversando:
– Eu venho trabalhando por diversos anos e posso te dizer: “não conheço gente competente que ganhe pouco dinheiro.”
– Mas e aqueles cientistas da universidade. Eles estão ganhando mal.
– Bem, não nego que são profissionais de grande qualidade, mas daí dizer que são competentes é outros quinhentos.
O interessante é que seu dissesse que conheço pessoas de “qualidade profissional” ou conheço “pessoas competentes”, provavelmente você não veria uma diferença significativa, pois são sinônimas. Contudo quando se trata de argumentação até mesmo os sinônimos dão lugar ao antagonismo.
Realmente é controverso, mas parece ser um recurso muito utilizado e interessante. Quantas vezes não ouvimos uma pessoa falar:
– Não que você esteja errado, mas a sua atitude não é condizente com sua postura.
Ou:
– Feia?? Nãããão!! Você é bonitinha!!!
Ainda:
– Não é que eu esteja devendo, eu apenas não paguei algumas parcelas.
Enfim, a ideia é negar, e afirmar com outras palavras.


Não que deseja um ótimo dia para vocês, mas boa semana a todos.

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Não se pode rimar

Texto com erros de português, invoco a “licença poética”. Aliás, o que vem ser a “licença poética? Quem sabe a gente discuta isso em outra oportunidade?
 

- E aí, de boa?

- Só na manhã parceiro, tamo junto, é nóis que voa!

- Diz aí….qual é a novidade?

- Tomei banho de garoa lá em frente a garagem.

- Hmm…boto fé, que massa!

- Você não sabe o que perdeu, é muito bom e é de graça.

- Só tenho uma dúvida: tava quente ou tava fria?

- Fria de lascar, pior só pneumonia.

- Soh….você tem visto o Romão?

- Romão Di Calatto, ou Romão Damião?

Se for o Di Calatto, faz tempo que não vejo.

Se for o Damião, ontem mesmo o vi bebo.

- Certo, aliás, tu tem notícia da Martinha?.

- Martinha? A cachorra? A besta moribunda?

Terminou com o namorado,

Um vagal desempregado

que vivia as suas custas…

- Caraca….até parece mentira…

- Nem é, pode crê, tudo verdade verídica…

- E o Jão?

- Que Jão?

- Seu irmão..

- Sim, então..

- O bicho ta de boa? Ta melhor da depressão?

- Quem dera, meu irmão! Infelizmente, piorou grandão.

Se entupiu de remédio.

está a cuidados dos médicos, em observação.

- Boto fé…saca, você ta me zuando…

- Só porque a cada pergunta eu respondo rimando?

- É maluco, é melhor tu ficar de boa

Comigo o papo é reto,

Aqui a bala zoa…

-Que isso maluco? Isso é só impressão..

- É verdade?

- É vero.

- Vou embora então. Mas a partir de agora

não me venha com rima.

Se não eu pego pego revólver e te encho de balinha.

- Beleza, pode crêr, isso não é legal.

Posso ver que agora é hora de dar…

O parceiro puxa o revólver e mira na cabeça do rimador.

 

- Er…Posso ver agora é hora de dar um até logo para você meu grande amigo. Fica com Deus e boa sorte.

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Os paradoxos da vida

Entrou na universidade, arrumou a farda e gritou:

“Viva a morte!”

Esse era o ano de 1936, Universidade de Salamanca, espanha. O general Millan Astray acabará de invadir a universidade. Astray foi um combatente da Primeira Guerra, perderá um braço, uma perna e um olho. Quase um Joseph Climber. Naquele ano, o reitor era o famoso filósofo Miguel de Unamuno, aos 70 anos de idade.

Os falangistas (como eram conhecidos os fascistas espanhois), liderados por Franco com apoio de Astray, convocaram uma grande celebração no saguão da universidade, agora tomada. Novamente, cheio do nacionalismo latente nas veias, Millan gritou:

“Viva a morte!”

Alguém gritou:

“Espanha!”

E o saguão em uníssono:

“Espanha! Viva a morte!”

No palco estavam Astray, a senhora Franco, o bispo de Salamanca e um envelhecido Miguel de Unamuno, praticamente um troféu da conquista dos nacionalistas espanhois. Em meio aos gritos o agora ex-reitor Unamuno levantou-se e dirigiu-se ao palanque:

“Todos vocês estão esperando minhas palavras. Todos vocês me conhecem e sabem que sou um incapaz de permanecer em silêncio. Em certas ocasiões ficar em silêncio é mentir, pois o silêncio pode ser interpretado com aquiescência. Quero comentar o discurso – para dar-lhe um nome – do gereral Millan Astray… Há pouco escutei um grito necrófilo e sem sentido: “Viva a morte!” E eu, que passei minha vida dando forma a paradoxos, … devo dizer-lhes, como autoridade no assunto, que esse bizarro paradoxo é repulsivo a mim. O general Millan Astray é um inválido. Um inválido de guerra. Desafortunadamente, existem inválidos demais na Espanha agora. Em breve haverá ainda mais se Deus não vier em nossa ajuda…”

Nesse momento Astray empurrou Unamuno para o lado e gritou:

“Abaixo a inteligência! Viva a morte!”

Os falangistas avançaram para agarrar Unamuno, mas o velho reitor prosseguiu:

“Este é o templo do intelecto. E eu sou seu sumo sacerdote. São vocês que profanaram seus sagrados recintos. Vocês vencerão, porque têm força bruta suficiente. Mas vocês não convencerão. Pois para convencer é preciso persuadir. E para persuadir vocês precisarão o que lhes falta: razão e direito…”

Unamuno foi posto em prisão domiciliar e declarado “morto por causas naturais” no mesmo mês.

Retirado do livro “Uma senhora toma chá…”

Este poderia ser com certeza um conto, mas não. Isso aconteceu realmente na espanha durante a guerra civil espanhola. Qual a lição tirar disso tudo? Não sei! Talvez perceber que os paradoxos da morte são mais fortes que o paradoxos da vida? Não sei!

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Ética profissional

- Oi, bom dia. Que horas são?

- 2 e meia.

- Ah, que legal! na hora…

- na hora? Tá na hora de quê?

- De você passar tudo, bora! É um assalto mocinha! HAHAHA!

São Paulo, Rua Demétrio da Coisa, 2 e meia da tarde. Joana Tavarez é abordada por um meliante e começa o seu desespero. A coitada mal tinha saído do banco, mal tinha pego o seu primeiro salário, mal tinha colocado a grana na carteira, já foi abordada por um vagabundo maquinado. Ô azar, hein!

- Passa a grana, vamo passa tudo!

- Ô moço, por favor, me deixa ir.

- Não, minha filha! Passa o ouro, passa o celular! Passa tudo aí, se não eu te encho de azeitona! Bora, bora!

- Moço, eu peguei o meu primeiro salário hoje…

- É mesmo? Vamos comemorar então com um assalto! Todo mundo é assaltado na vida, que tal você já ir pagando a sua cota de roubo? Vamo, passa a grana.

- Mas moço, não faz isso…

De repente o meliante dá um puxão nela e coloca o cano do 38 no seu ouvido. Ele não está para brincadeira. Joana começa a sentir a morte mais perto dela.

- Olha aqui mocinha, eu não estou para brincadeira, ou tu passa logo isso, ou passo você aqui e agora.

- Moço, leva o celular mas deixa o meu dinheiro.

- Não, quero tudo $%*#($*%*!!!

- Você não tem mãe não moço?

- Nunca conheci.

- Nem tem irmã?

- Me disseram que sou filho único.

- Você não tem família?

- Tenho e preciso da tua grana para continuar tendo uma. Vamo, é a última vez!

O bandido engatilha a arma e começa a contar.

- 1…

- Ai meu Deus, eu vou morrer…

- 2

- Perdão por tudo que fiz…

- 3…opa! Que tatuagem é essa aí no teu braço?

Joana olha assustada para o seu braço, mais especificamente para a tal tatuagem. Era a tatuagem que ela havia feito para o seu ex-namorado.

- Que bagaça é essa guria? “Colibri DS:  Eu te amo”? Tu conhece ele?

- Ele é o meu ex-namorado, por quê?

- Pô, o cara é um dos maiores bandidos da Zona Norte! Que merda é essa!

O assaltante solta Joana desesperadamente e guarda a arma na cintura. Pede desculpas pelo ocorrido e para Joana se acalmar. Joana não entende nada.

- O que houve? Você não ia me matar, me roubar?

- Ia, mas agora não vou mais. Posso não ter mãe, posso nem saber da onde vim, posso ser bandido, mas uma coisa eu tenho…

- O quê?

- Eu tenho ética, sou bandido mas tenho ética. Não vou roubar ex de amigo meu não. Ele pode ter um sentimento por você ainda, tô fora dessa resenha aí!

- Hã?

- O quê, ta achando estranho? Posso ser ético na minha profissão não?

- ???

É verdade. Qual é o problema de um bandido ter ética profissional? Eu não acho nenhum problema. Nem eu, nem o advogado abaixo.

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Deuses

Conheço gente de ideal puro
Que fecha olhos pro pecado
Gente que nunca pulou muro
Gente de ato adestrado.

Não conheci quem apanhou
Só quem bateu e não levou
Será se eu só tenho apanhado?
Triste sou só com meu enfado.

Sou o último vil entre os deuses
Olimpo fecha-me a porta de cristal
Pois tua ambrosia me faz mal.

Meu grito é de gente reles
Farto de tanta hipocrisia
De quem erra e se maquia.

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